We ♥ Katamari

Katamari Damacy é um dos meus jogos favoritos. Eu gosto bastante dele, a ponto de desperdiçar mil oitocentas e não sei quantas palavras falando de como ele reúne muitas de minhas preferências em joguinhos. Passei bons tempos ponderando enquanto jogava We ♥ Katamari se eu gostava de Katamari ou Katamari Damacy, o jogo original. Sério, não me entendam mal, é que o primeiro tinha alma. Vou contar um negócio aqui que já falei antes e direi quantas vezes for preciso: não existe maior homenagem ao mundo, a música, a vida e todos os seus pequenos detalhes que Katamari Damacy. É uma atividade gratificante jogá-lo. Tanto que We ♥ Katamari é uma grande… carta? Talvez homenagem à Damacy. Assim, claramente quem fez esse jogo tem um enorme carinho pelo seu antecessor. Porém, não acredito que essa pessoa seja Keita Takahashi.

Nas primeiras fases W♥K me incomodou bastante. Não é a mesma coisa, sabe? Parece que tem um monte de gente contando piadas sem graça e tentando ser super conscientes de si, ironicamente ou não. A todo momento você escuta (lê!) os outros falando de como Katamari Damacy é um jogo grandioso demais (é verdade) e como todos que estão ali não vão conseguir superá-lo mesmo que essa devesse ser uma de suas missões. A todo momento parece que falta alguma coisa, uma simplicidade que agora, com o céu já estrelado e com a grandeza do final de Damacy, parece impossível de ser alcançada. Eu ODEIO o Rei Do Cosmos. Não sei como, mas ele simplesmente se tornou insuportável nesse jogo, e era muito bom ver ele sendo cuzão no Damacy enquanto fazia seus tours pelo mundo. Curioso que, ao invés de falarem sobre histórias de uma família qualquer que acontecem enquanto você vai jogando, o que se passa no fundo desse é a história do Rei. W♥K é um jogo muito mais centrado no Rei, Príncipe e seus Primos do Cosmos que na interação deles com o mundo. O Rei na verdade parece ignorar os pedidos e súplicas que você tenta atender, lá do planeta terra. Ele só se convence de que vale a pena jogar se essa pessoa elogia Katamari de algum modo.

Eu falei de súplicas?

Tem um monte de gente querendo mais Katamari nesse jogo. E elas vão pedir para você ajudá-las com algumas coisas, bem específicas às vezes, aí acaba variando de fazer o maior Katamari possível até limpar um quarto ou mandar todo mundo embora de uma escola. Acho engraçadinho isso, faz parte daquela coisa de auto-consciência e tentar mostrar que sim, nós sabemos o quanto Damacy é importante e por isso mesmo precisamos de mais e mais Katamari. Aí quando você termina a fase a mesma pessoa que suplicou por mais diz coisas do tipo:

“Podem ficar com esse Katamari, eu não achei ele tão bom assim”

Isso se repete. Fase após fase, favores e mais favores. Nossa! E as pessoas que viraram todas genéricas? Tipo, claro que é impossível num jogo de playstation 2 você dar nome próprio para todos os seres (minto: em Metal Gear Solid 2 todos os guardas possuem uma dog tag com um nome diferente) num mundinho que tem como foco descrever tudo o que há nele, mas, caramba, nenhuma pessoa única? Uma parte bem legal do Damacy é quando você fica grande o suficiente para passar por cima de uma pessoa e as chances dela ter um nome próprio são bem grandes. Aqui não, é tudo Menino, Menina, Casal, Casal Invertido (esse é legal), Carteiro, Policial, etc. Num momento eu me peguei prestes a dar razão ao Rei. Quer saber? Me elogiem do jeito mais criativo e sexy possível, aí eu penso no que devo fazer! Parece que eu não me expresso aqui, mas tento criar a expressão dos outros. Nunca vai ser bom como eles imaginam, claro. Aquela coisa do Damacy de que mesmo os Katamaris, err… especiais, com elementos específicos eram uma coisa sua que criava estrelas primariamente na forma das coisas que você juntava, era legal, não tinha uma urgência em obedecer aos apelos da mente de um terráqueo. É até engraçado o jogo parecer tão centrado no pessoal do Cosmos com tantas pessoas pedindo coisas. Enfim. Joga o Damacy e tenta imaginar uma continuação dele, tenho certeza que sua imaginação vai ser completamente diferente do que veio a se suceder. Bom, é a vida, né? Talvez essa incapacidade de conseguirmos reproduzir os desejos imaginativos dos outros em sua completude seja um comentário sobre arte e continuações. Chega, Lucas, chega!

Katamari Damacy era um mundo. Você começava dentro da casa de uma família qualquer, saía pelo jardim, depois passava pelas ruas da cidade e no seu ápice alcança alturas enormes, a ponto de pegar nuvens e alguns deuses no seu Katamari. As fases, (mesmo as específicas de juntar vários objetos do mesmo tipo) se passam todas nesse mesmo lugar, sem tirar nem pôr. Se uma fase inicia num lugar diferente, tenha certeza de que se as barreiras do tempo limite fossem removidas, você conseguiria alcançar outro Lugar de Início de Fase. Desse jeito ele já era um jogaço, super imaginativo. Só com o posicionamento de coisas diferente e maluco cada parte ganhava seu brilho e botar um monte de bananas para formar uma trilha no começo já parecia uma forma de expressão em si. Nele o principal o objetivo era preencher o céu com estrelas, pois elas tinham sumido. Em W♥K o céu já está cheio de estrelas e os casais podem aproveitar suas noites românticas. Sabe o que falta? Planetas, encher o universo de planetas. Ele é o antecessor numa escala maior.

A gente sempre imagina outros mundos como uma versão um pouco distorcida do que já temos na realidade. Para pra pensar em algumas obras com uma temática que envolve visitar planetas. Se não é uma diferença de física, como os nerds gostam de fazer e ficar brincando com a gravidade, é estética, mesmo. Sempre tem algum planeta com cores malucas e cogumelos ao invés de árvores e tudo parece tão fora do nosso plano mesmo sendo só coisas dele de cabeça pra baixo. Tem umas fases que englobam muito bem essa sensação em sua temática. Tipo uma que você tem de formar um Katamari todo feito de flores para uma mulher, aí ela se passa num lugar que (a partir de hoje) se chama Planeta Flor. Lá tem anjos, elfos e um animal ou outro, mas todo o resto é feito de flores. E é esteticamente incrível isso, não é só uma parte gostosa de jogar, é também uma parte que faz um tantão de bem pro coração só olhar pra ela e curtir. Outra parte que eu gosto bastante é quando um estudante, preocupado com seu vestibular, precisa da sua ajuda para se manter acordado enquanto estuda, aí ele pede iluminação! O problema é que ele vive no Mundo Escuro, só que (há) o mundo escuro na verdade é o Planeta Vagalumes e você tem que encher o Katamari deles para manter o coitado acordado. É outro cenário com estética fantástica. Isso vai se multiplicando conforme o jogo passa, tem uma que é só uma pista de corrida, o Mundo Corridas, tem também o Planeta Escola e até o famigerado Planeta Tudo O Que Tem Aqui É Doce. Um dos momentos que eu resolvi abrir mão de tudo o que falei nas duas últimas páginas e só aproveitar foi quando essas fases começaram a ganhar destaque. Como se fosse o conceito de set piece dentro do universo de Katamari, o resultado é lindo, é criativo, é melhor do que qualquer elogio (não aguento mais gente massageando meu ego) que terráqueos possam me atribuir.

Outro momento no qual esqueci de tudo isso; quando tocou a música Baby Universe, e eu reconheci a voz de uma pessoa, uma mulher: lá estava ela, a maior musa do japão, a Garota de Shibuya (acabei de inventar o apelido [tenho certeza que alguém já pensou nessa]), a mulher mais garbosa que inventou de tomar o posto de cantora e ter os holofotes virados para si, a melhor decisão que Fernanda Takai fez na carreira dela, ela mesma, Maki Nomiya. Nem sinto vontade de contar alguma história relacionada a música japonesa, o que importa é que no presente momento, esse que vos fala acredita que é fisicamente impossível não se empolgar com pelo menos uma dessas cantoras japonesas e que, lá no fundo, acredita também que a vida seria mais sem graça se não existisse aquela vontade primal de ritmar os passos ao som da Glider, durante uma caminhada ao som do Lounge Design Killers, do capsule. Esse negócio de música japonesa veio pra ficar. Se não tivesse o Yasutaka Nakata, estava morto há tempos. Katamari Damacy me trouxe várias músicas que considero que sejam onde toda a experiência estética do jogo culmina, e trouxe também uma música bem especial num geral. Agora, ter OUTRA? Por uma cantora admirável dessas? Me pegaram de surpresa.

Eu recomendo se desligar de tudo, às vezes. O tempinho que passei em W♥K foi dentro de um contexto onde o que eu mais queria era me desligar de muitas coisas. E claro, ele me fez ligar para um monte de coisa na tela da tv que… bem, eu não estava nem um pouco afim de ligar. Uma hora simplesmente tanto faz se o texto tava ruim ou não, se o Rei do Cosmos é um cuzão, mas não cuzão igual ele era no Damacy. Uma hora as pessoas que pedem pra você alcançar as expectativas delas quanto a um Katamari novo param de reclamar de tudo o que sai, e aí você percebe que a culpa era sua, porque era ruim no jogo. Uma hora todo aquele pessimismo em volta de si se transforma num respeito pelo o que se foi criado, culminando na última cena, que é o nascimento (literalmente) de Damacy.

As pessoas reagirem ao seu Katamari ao invés do Rei foi uma coisa que me deixou bem chateado, no começo. Só que faz parte elas reclamarem, tem umas pessoas que começam a pedir os mesmos favores mais uma vez (lembrei de Metal Gear Solid V, que fica mandando umas missões extras que eu já fiz do nada só para continuar tendo o que fazer e bom, o primeiro reflexo foi ignorar), na verdade eles são os mesmos só que diferentes, alguma condição a mais faz com que a fase sofre um giro de 180° nas suas prioridades, o que é bem legal, é a mesma fase mas você tem que prestar atenção em minúcias diferentes de antes. Nessa segunda vez, eu descobri que nem sempre se ganha reclamação e que na verdade alguém que está muito acima de nós, meros jogadores que não conseguem ver os números por trás das imagens e muito menos consultar um guia e descobrir que esses números importam resolveu que as pessoas falam coisas diferentes dependendo do quão bem você vai numa fase. E, sei lá, foi bem natural, eu comecei a ignorar os reclamões e aceitei os que ficaram felizes com o Katamari. O pessoal que ficava insatisfeito geralmente dizia que a gente resolveu sim os problemas deles, porém o Katamari mesmo, era menos do que elas esperavam; aí eles deixam o Katamari com nós, o pessoal do Cosmos, então criamos mais um planeta que vai deixar o universo um pouquinho mais cheio. Quando você vai bem, eles também deixam o Katamari com você, mas dessa vez é de bom grado.

Aí depois de encher o universo com planetas e mais planetas, cometas, poeira estelar chega a hora de juntar tudo; o último grande objetivo do jogo é fazer um Katamari grande o suficiente para passar por cima do Sol. É um momento contemplativo de ver tudo o que você conquistou anteriormente se juntando numa coisa só, essa fase poderia até ser um tipo de menu, mesmo já tendo aquele lá de ficar olhando as constelações e estrelas, imagine você poder ANDAR nele? E ir juntando as coisas e quando vê dá certo de passar pelo sol – mesmo sem ninguém falar que é necessário – e aí mostra os créditos. Mas uma fase separada só para isso é bem bom também, só pela ideia já é ótimo. Depois de tudo isso o círculo fecha: a gente entende tudo o que rolou na vida do Rei, o mundo está satisfeito e, no fim, dá para ver uma demonstração de carinho imensurável por Katamari Damacy, mesmo que passando por umas veredas estranhas.

E esse Katamari? Está bem Palavreado, com todo tipo de palavras. Pode ficar com ele também, Rei. Valeu a pena, né?

PS: O diretor de We ♥ Katamari é o Keita Takahashi.

Escrito por lucasq

O mais boiola desse site.