VA-11 Hall-A: Cyberpunk Bartender Action

A abertura de Durarara é uma coisa incrível. Não, sério. Não é nem pela música — mas pelo modo como ela consegue condensar um conceito da série inteira: você tem a cidade, você vê um monte de coisa acontecendo simultaneamente enquanto mostra o nome de algumas pessoas que habitam a cidade, eles são todos entrelaçados, mesmo que não diretamente relacionados. Você tem uma história, uma cidade, um monte de gente, mas no momento em que aparece o nominho de cada personagem o que importa é ele mesmo, o que está acontecendo com ele, o que ele vai ter pra contar.

Quando começa o primeiro episódio somos primeiro apresentados ao “protagonista”. Ele anda pela cidade pela primeira vez na vida: aí tem um monte de gente andando e cruzando com ele, aos poucos ele vai sendo apresentado a cada um como “aquele da gangue”, “o russo do restaurante”, “Izaya Orihara”, “esse que você não deve mexer, de modo algum”. Cada um desses está no meio de sua própria história, dentro da cidade que tem mais um monte de gente com um monte de historinha acontecendo simultaneamente. No segundo episódio o personagem de foco muda — é uma garota qualquer da cidade que quer se suicidar junto com um grupinho de internet (e Izaya Orihara, claro). Depois você começa a ver o padrão : tem uma pessoa narrando a história de outra (que vai [ou vão] ser o foco do episódio) enquanto outras coisas que talvez tenham acontecido num outro episódio passam de coadjuvante na história da semana. As pessoas começam a repetir e se entrelaçar mais e mais. Você começa o episódio ansioso pra saber quem vai ser a pessoa do dia. Durarara é uma história *de cidade*.

time to mix drinks and change lives.

Claro que isso tudo nos leva para VA-11 Hall-A: Cyberpunk Bartender Action.

VA-11 Hall-A é a única história *de cidade* que importa, junto com Durarara.

VA-11 Hall-A é um jogo *cyberpunk* em que você é uma bartender.

Seu nome é Jill. Você serve as pessoas que entram no bar. Você escuta elas falarem sobre seja já o que esteja acontecendo no momento: relacionamentos, lembranças antigas, o trabalho de prostituta robô, a vida de idol, os cliques no jornal, insegurança com carreira, problemas de família, tudo isso enquanto serve drinks. Ele se passa 2069 numa cidade um pouco mais avançada que o resto do mundo: onde o progresso já chegou, existem robôs vivendo em sociedade, trabalhando, sendo famosos, existem nanomáquinas, existem pessoas modificadas com braços robóticos e orelhas de gato. Também com seus conflitos políticos, protestos, intrigas e problemas que rondam, bem, o nosso dia-a-dia: isso tudo é o que constitui a temática do jogo, um pano de fundo. É a cidade. É o que você lê no jornal todos os dias após acordar e acessar o celular antes de sair para o bar trabalhar; também pode ser o assunto da conversa da noite, entre cada drink que o cliente vai pedir.

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1 Adelhyde, 2 Bronson Extract, 1 Powered Delta, 2 Flanergide e 4 Karmotrine. Batida. Um dia já foi conhecida por alguns como a cervejinha da sexta feira. Hoje é raríssima, mas essa combinação de elementos químicos é bem próxima.

200$

O primeiro passo ao chegar no trabalho é sempre ajustar a jukebox: você escolhe a trilha sonora que mais lhe apetece para tocar durante o trabalho, ao todo podem-se escolher um total de doze músicas entre as muitas que são disponíveis. Elas conseguem tornar tudo mais confortável: sempre parece que você tá ~no clima da coisa~ quando tem a musiquinha de fundo e elas conseguem surpreendentemente encaixar em muitas situações que acontecem lá, mesmo que por acidente. Aos poucos dá pra ficar familiarizado e começar a escolher uma seleção de algumas obrigatórias: eu tinha pelo menos cinco ou seis músicas que eram “de sempre”. E a noite sempre tinha de começar com uma faixa em especifico (“Welcome To VA-11 Hall-A”).

Depois de ajustar a jukebox e aprender a fazer seu primeiro drink (é bom ter certeza de que não vai errar!) o jogo começa de verdade — o primeiro cliente aparece, pede sua bebida e vocês começam. É bem pessoal e descontraído, a escrita das conversas, como deveria ser em toda conversa de bar, cheio de referencias e metáforas sexuais sem medo nenhum, toda informal e gostosa de se ouvir (ler!). Você serve e escuta, serve e escuta. Não existem “escolhas” ou “caminhos de dialogo” porém dá pra alterar um rumo de conversa somente com as bebidas: sendo a bartender, é esperado que se faça certo o trabalho. Se alguém pedir um drink você consulta a lista de receitas no Aparelho Onde Ficam As Receitas De Bebidas (parece um tablet, pensando bem). Nele tem as substâncias químicas usadas e suas respectivas quantidades pra fazer uma mistura; assim que a cerveja é imitada, é assim também que você sabe qual bebida é realmente alcoólica e qual não é. Sabendo a receita, você prepara. Pode ser feita em sua dose normal, seguindo a fórmula ou pode também ser uma dose grande; aí o cliente pode ficar bêbado mais rápido. Pode ser uma bebida só batida, ou você pode ter que esperar ela misturar (importante, faz diferença) também pode ou não conter gelo. As vezes alguém vai pedir uma bebida sem contar o nome dela, e cabe a você adivinhar através do que ela fala qual a bebida ideal para o momento — isso também pode mudar o rumo da conversa.

2 Adelhyde, 1 Powered Delta. Karmotrine é opcional. Batida. Docinho, com gosto de frutas, como diriam, essa é a famosa “bebida de menininha”.

$150

Conforme os dias vão passando, não só novas pessoas vão aparecendo mas também as que vieram uma vez e se sentiram em casa vão começar a retornar. Aí vai ter alguém, que já conhecendo a Jill, irá pedir “o de sempre”. Claro que você vai ter de saber o de sempre: demonstrando interesse ou atenção pela pessoa em questão fica fácil saber, porém quando não gosta de alguém talvez não seja tão fácil assim. Pessoas aparecem, pessoas se correlacionam, o detetive e a garota com orelhas de gato conversam juntos, o matador de aluguel fala com a prostituta robô e assim vai. Coisas vão acontecendo no mundo lá fora. O dia começa com a curiosa pergunta “quem será que vai aparecer no bar hoje?”. Essa talvez seja a prova de que não precisa de muito para fazer uma obra interessante e com carinho: só com a imaginação do que acontece lá fora e a conversa das pessoas do bar você tem um mundo.

Vale notar que, sim, fora do bar tem uma coisa ou outra. Seu apartamento e as lojas da cidade. No apartamento é onde você descobre o que acontece com o mundo, seja entrando num fórum que é uma versão do 4chan do jogo ou no jornal. Talvez estejam até falando de algum conhecido do bar no fórum, ou do próprio bar. Você não acreditaria na fama que a gente pode receber de vez em quando. E nas lojas, bem, você compra bugiganga pro apartamento.

6 Adelhyde, 3 Powered Delta, 1 Karmotrine. Misturado e envelhecida. O mais perto daquela bebida que começava com “Mar”. Uma certa pessoa que vem no seu bar a algum tempo já gosta muito.

$250

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Às vezes a Jill gostaria muito de ter alguma bugiganga da cidade em seu apartamento — você pode comprar com o dinheiro que ganha sendo uma boa e atenciosa bartender. Se ela não comprar aquela, por exemplo, árvore de natal que está ocupando a mente dela, ela não vai ter foco no trabalho. Quando não tem foco no trabalho, ao invés dela ficar pensando no pedido do cliente ela vai pensar naquela árvore de natal. Afinal, era tão bonita. Aí fica um exercício de memória a mais — tem que prestar uma atenção extra no que cada cliente fala porque não vai ter um lembrete mental de qual bebida ou que tipo de mistura ele pediu. É claro que Jill tem sua própria vida e contas para cuidar — e esquecer de cuidar com as contas de luz e do apartamento podem prejudicar a mesma (luz é MUITO caro, mas o aluguel consegue ser pior ainda). Nos atos finais também tem como descobrir um pouco mais sobre o que acontece com ela, seus relacionamentos e coisas da sua vida pessoal, como se ela tivesse virado o cliente e o cliente o bartender, literalmente numa certa situação. Tudo nesse modo bem casual e despreocupado de conversa sobre a vida mesmo.

1 limão cortado, 2 colheres de açúcar, Cachaça. Com gelo. Um dia já foi descoberta como um medicamento, hoje é o medicamento do fim de semana de muita gente. Infelizmente não existe no futuro.

Apesar de ter a temática *cyberpunk* e ter várias coisas acontecendo, VA-11 Hall-A não tem uma HISTÓRIA ou um ARCO PRINCIPAL. Ele tem suas conversas dentro do bar e o pano de fundo, uma situação para torná-las mais autênticas, com um lugar naquele mundo. Todo dia vão ter muitas pessoas andando na rua, tendo problemas de saúde por causa das nanomáquinas, substituindo um membro do corpo por uma prótese, escrevendo, arrumando trabalho, tentando sobreviver nesse lugar. Todas as vidas seguem na cidade, cada uma de seu modo, com suas historinhas. Mas a vida que vai ser realmente importante vai ser a que vai entrar pela porta do bar, sentar, pedir um drink e começar a conversar.

time to mix drinks and change lives.

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Escrito por lucasq

O mais boiola desse site.