The Talos Principle

Teve uma época da minha vida na qual eu acreditei que era possível conseguir estudar engenharia, trabalhar e fazer curso de japonês por diversão. Nesse tempo, eu comecei a pegar o sábado de manhã para fazer aulas no Kumon, mas por causa dessa conjuntura eu só fiz os módulos de Hiragana, Katakana e uns Kanji bem básicos, como 山, 川, 森 e os números (isso foi em 2010, então eu não lembro de praticamente nada). Naquela época eu trabalhava como professor de cursinho, então o método Kumon de ensino acabava me chamando mais atenção do que o japonês.

Eu não sei se você conhece o método Kumon, mas ele é mais ou menos assim: você recebe uma lição focada no aprendizado de um único detalhe e vai repetindo ele exaustivamente até o próximo encontro com seu professor, que avalia seus resultados e, baseado no seu desempenho, te faz repetir o módulo ou seguir em frente. Os módulos eram bem granulados, o primeiro de japonês ensinava os kana し e か em 10 páginas. As primeiras para し, as próximas para か, e no final nós precisávamos juntar os dois termos para formar しか, com o desenho de um cervo. Todas as páginas tinham desenhos das palavras que completávamos ao preencher o kana e sempre ao passar de página devíamos marcar quanto tempo investimos nela (parando para pensar agora, o level design do Kumon era bem intuitivo e focado no gameplay, o Egoraptor ia gostar). Frequentemente nós fazíamos outras atividades, como memorização, para reforçar os conceitos aprendidos.

Outras coisas bem legais no Kumon é que do nada eu era surpreendido por lições de módulos anteriores no módulo atual, para reforçar o aprendizado presente e dar um nível de desafio maior a ele. Além disso, havia convites para eventos da cultura e do universo japonês, mas eram opcionais. Quero dizer, eu não precisaria deles para o curso, mas eles reforçam o aprendizado e o colocam em um contexto de forma mais profunda que as lições isoladamente. Se você já aprendeu algum idioma, sabe que esses eventos são o que te ajuda a se inserir em um novo universo, mas sem eles você consegue se virar para ler um texto.

The Talos Principle é o Kumon dos jogos. Tem uns computadores com diversos complementos da leitura, mas você não precisa de nada disso para jogar The Talos Principle, embora você só consiga entrar de verdade naquele mundo acompanhando cada um dos textos recebidos. O ritmo do jogo evolui na medida em que avançamos nas câmaras, sendo que dentro delas há puzzles inseridos de forma didática para que o aprendizado básico em uma câmara ajude nos desafios mais avançados, sendo que os mais difíceis recompensam abrindo sua mente para o paradigma de outra câmara, ao menos no início, quando estes desafios precisam ser aprendidos e atacados lentamente.

Ao começar um puzzle, é possível ver se a recompensa será uma peça de Tetris das cores verde, amarela e vermelha, e as peças determinam a dificuldade da forma que você espera que estas cores o façam. Da mesma forma que no Kumon, completar os puzzles fáceis é o que garante abrir os próximos módulos, mas você só poderá de fato fazê-los ao completar os níveis médios, que liberarão os novos itens necessários para executá-lo. Mas são os difíceis que darão as principais recompensas do jogo.

Eu queria dizer que The Talos Principle não pode ser comparado com Portal 2, mas há muitas semelhanças entre ambos. Ambos progridem em seus desafios inserindo novos recursos de interação e resolução de desafios e ambos contam uma história que não precisa ser totalmente consumida pelo jogador, mas, como em Portal 2, alguma coisa daquele mundo será entendida até por pessoas que só estejam interessadas em resolver os puzzles. O recurso narrativo de contar a história pelo gameplay é o mesmo, embora não seja executado com a mesma maestria de Portal 2. Mas, diferente de Portal 2, a progressão das câmaras não é necessariamente linear, embora algumas exijam certos pré-requisitos para serem acessadas.

Mas com uma presença bem diferente da GLADoS, The Talos Principle tem um mestre, um criador desses desafios. Como todo jogo que não tenta se explicar completamente, a interpretação do que é esta entidade pode variar, mas não consigo vê-lo como algo diferente de um professor, que coloca desafios didáticos a frente de seu aluno para que ele se faça maior do que é. Tal qual no Kumon.

Escrito por Roberto Rezende

Odeia jornalismo.

  • Gabrieleiro

    Não consigo jogar esse jogo sem sentir motion sickness depois de 20 minutos, mas adoro ler textos sobre ele porque todo mundo que escrever parece ter bastante carinho pelo jogo.