Persona 3 Portable

Time never waits.
It delivers all equally to the same end.
You, who wish to safeguard the future, however limited it may be…
You will be given one year;
Go forth without falter,
with your heart as your guide…

Ora você se aproxima de algumas pessoas, ora se afasta inconscientemente (ou não) de outras. Seus amigos morrem e pessoas importantes para os seus amigos morrem. O tempo todo vemos pessoas em depressão pelas ruas, gente sem vontade de viver e amigos da escola que não querem lidar com as coisas que têm que lidar e apenas fogem dos problemas. Persona 3 tem sim seus momentos felizes no meio disso tudo — você passeia com o cachorro, sai pra ver filme com a namorada, toma um café com um amigo — mas essas coisas estão sempre ali: ansiedade, medo, insegurança nunca deixarão de existir à sua volta.

Dentro do dormitório tem uma garota que perdeu o pai quando era menor, um garoto que viu a mãe morrer na sua frente e um outro que, por displicência, causou a morte de alguém inocente, entre vários outros casos. Todo mundo daquele dormitório tem que lidar com a morte e a perda em algum nível e a reconciliação consigo mesmo depois dessas perdas é algo que todos ali buscam, mesmo que não saibam como. Persona 3 é tanto sobre morte como sobre amadurecer e buscar melhorar.

Depois de algumas semanas vivendo naquela cidade, ela se torna bem previsível. Há um casal sempre sentado em frente ao cinema, duas senhoras sempre conversando no shopping perto da fonte e um gatinho sempre no mesmo beco. Viver ali se torna rotineiro. É como sair de casa para comprar pão e ver sempre o vizinho no mesmo horário indo sair com o cachorro. Mesmo que não se conviva com aquelas pessoas, há uma sensação de que elas fazem parte do seu dia a dia de algum jeito.

Dessa mesma forma, ali também há pessoas com quem você convive de fato: a garota do grêmio estudantil que é ansiosa demais, o garoto que é apaixonado por uma professora, o casal de velhinhos da livraria que perdeu o filho, a criança no parquinho que vê seus pais se divorciarem sem entender bem os motivos. Você passa tardes inteiras com essas pessoas, às vezes os fins de semana também. Você investe seu tempo nelas, seja pra saber o que acontece, seja pra aumentar o Social Link daquela Arcana ou pra simplesmente ajudar elas a melhorar de alguma forma porque agora já é tarde e você passou a se importar. E elas realmente melhoram, todas as pessoas com quem você decide conviver vão alcançando suas próprias respostas e aceitações com o tempo e você faz parte disso — ativamente ou só estando ao lado das pessoas quando elas precisam. Se não fosse você, talvez a garota da equipe de natação não tivesse descoberto que queria ser treinadora. Talvez a sua vizinha de dormitório não tivesse decidido que era hora de se reconciliar com a mãe e conversar sobre a morte do pai. Se não fosse você, aquele gatinho do beco talvez tivesse morrido de fome.

O jogo não só te coloca numa posição de ajudar os outros a melhorarem ou superarem, mas literalmente mostra que os seus laços e afetos com as outras pessoas te dão forças para lutar contra as partes da sua personalidade que viraram monstros cheios de inseguranças, ansiedades e medos. Não é sobre querer se tornar alguém impenetrável ou imune a esses sentimentos, mas sim aprender a lidar com essas coisas que são inerentes a todas as pessoas e nunca deixarão de ser por mais que possam tomar outras formas. Diferente do dia quando geralmente o tempo não passa até você tomar uma decisão, se você demorar demais para ir para o próximo andar na torre do Tartarus, uma hora ou outra a morte virá pessoalmente atrás de você. O jogo quer que você entenda que em alguns momentos o poder é seu, em outros, é da morte e não dá pra ser de outra maneira. É preciso fazer o melhor quando o poder for seu e, quando for dela, aprender a seguir em frente e lidar com o que tiver que lidar — tanto que não tem como voltar diretamente de um andar para o anterior. Toda noite que você vai para o Tartarus, você se expõe à essa falta de controle sobre a morte.

No Persona 3 não existe um discurso maior sobre o que é viver ou morrer. Todo mundo está descobrindo o que essas coisas são; cada um chega na sua própria verdade e cabe a você escolher o que quer levar dali pra si (ou se de fato quer levar algo dali). Mas a todo momento o jogo não deixa nunca de mostrar que você impacta aquelas pessoas de algum jeito quando decide participar da vida delas.

Essas pessoas todas são feitas de dados, são jpegs e polígonos organizados. Quando o videogame desliga, elas não existem; quando o jogo acaba, elas não estão mais lá — mas elas ainda irão permanecer em você. Elas existem nas suas memórias e assim, é capaz que de vez em quando você lembre da menina do grêmio que gostava de ler mangá shoujo ou daquela vez que você brincou de stand-up com o seu amigo no meio da galera enquanto vocês arrumavam a sala. Por isso no fim do jogo, quando tudo volta ao normal, as coisas não acabam simplesmente. Você tem um tempo seu para conversar com aquelas pessoas uma última vez, é o jogo permitindo que você que jogou possa se despedir delas porque ele sabe por tudo o que vocês passaram e sabe que você passou a se importar.

A vida é assim: encontrar pessoas e um dia se despedir.

Persona 3 é sobre se relacionar com o mundo e se deixar afetar, transformar e modificar enquanto se estiver nele. É sobre se entender parte de um todo já que a maior parcela da vida é convivência e não isolação. É sobre sair um dia da aula e ir com a garota que você gosta para tomar café no meio da tarde e conversar sobre o que aconteceu naquele dia. Sobre sair com o seu amigo e ir ver um filme de robôs gigantes se batendo porque é legal. Ir passear com o cachorro no fim do dia. Conversar com as pessoas quando você sente que deve. É sobre churrascos no fim de semana com a família. É sobre a importância dos afetos na vida. Sobre se apaixonar pelas coisas que estão ao seu redor no momento em que estão e não viver apenas se angustiando pela projeção do que quer ou pela nostalgia do que não volta. É sobre criar laços com as pessoas — mesmo que um dia você tenha que se despedir (talvez justamente porque um dia você tem que se despedir). É sobre todos esses pequenos momentos que alegram e sobre os que não alegram também. Persona 3 mostra a dor e a dificuldade de viver com e sem os outros, mas também é esperançoso, confiante e muito sincero em tudo que apresenta. Persona 3 pode ser sobre conseguir aceitar e lidar com a iminência da morte e da perda, mas seria impossível ele ser sobre isso se também não fosse sobre viver.

Memento mori.

Escrito por Fellipe Mendes

É o tipo de pessoa que tem sentimentos por videogames e cozinha pão de queijo sem deixar espaço entre eles pra depois ir separando enquanto come.