O Show do Steven Wilson

Eu ia sozinho para o show do Steven Wilson e, por causa disso, acabei gastando uns trocados a mais e comprando um ingresso no mezanino da casa de show. Sempre que tem um show próximo, fica aquele dilema de saber se vale a pena ficar na massa ou ficar em casa. Comigo, independentemente da opção escolhida, eu me arrependo, a não ser quando tem lugar sentado para assistir o show.

Não é (apenas) preguiça da minha parte, mas um distanciamento das massas que me permite acompanhar o show de forma mais individual. A massa se comporta de uma forma única e irracional, e a consequência disso é um comportamento eufórico. O principal trabalho de Ortega & Gasset foi estudar como isso acontece em revoltas populares, mas dá para estender este comportamento para shows. As bandas sabem disso: o Metallica não abre a maioria de seus shows com Creeping Death ou Fuel a tôa. O mezanino é o espaço no qual é possível apreciar um concerto e influenciar seus sentimentos apenas por ele, sem se deixar levar pelo comportamento da massa.

No passado, os shows existiam para divulgar discos lançados. Como hoje em dia os poucos que compram CDs não o fazem sem tê-­lo ouvido previamente, o papel se inverteu, e os shows são a fonte de renda principal dos artistas. O disco, outrora pensado como uma obra completa, agora costuma ser um conjunto de músicas com algumas selecionadas para entrarem em conjunto com os sucessos que as pessoas esperam ouvir nos shows. A primeira parte do show do Steven Wilson consiste na banda tocar todo o último disco, e apenas ele, na ordem, com pequenas pausas para qualquer observação. Outras músicas entram apenas na segunda parte.

Isso vem da compreensão de que o disco é um conjunto de músicas selecionadas de forma coesa, para se apreciar como o conjunto que é. É uma característica de boas gravações: não faz sentido, por exemplo, trocar a ordem de Come Together e Something em Abbey Road, assim como não faz sentido tirar Here Comes The Sun da faixa 1 do lado B. Também vem da compreensão pedante e correta de que todas aquelas músicas são boas o suficiente para serem ouvidas sem causar desânimo no público. Steven Wilson, a propósito, é pedante por natureza. Ele sabe que é um grande musicista, ele sabe que tem uma grande equipe de musicista com ele. Ele garante que o produto que ele fez é bom o bastante para ser ouvido desta forma, porque foi composto para ser ouvido desta forma. Ele é pedante a ponto de afirmar que o Heavy Metal não é mais o bastante para ele, um rótulo que ele quer abandonar porque o limita.

Cada show do Steven Wilson tem como finalidade mostrar a excelência dos musicistas que o acompanham, tanto no talento com seus instrumentos, quanto na forma que utilizam este talento nas composições. Uma das características de tudo que o Steven Wilson faz é a coesão entre os instrumentos, não tem nada fora do lugar ou fora do tempo. A mensagem que se passa em sua música e em seus shows é que aquilo é um fenômeno de qualidade, e deve ser apreciado como tal. Seus músicos estão cientes disso. Uma das coisas que sempre me chama a atenção é que a postura com a qual Adam Holzman, o tecladista da banda, encara seu equipamento é a mesma que uma pessoa normal encara uma frigideira ao fritar um bife. Aquilo para ele é normal, ele sabe exatamente o que precisa fazer e não precisa mostrar para ninguém que é bom naquilo.

steven wilson 1

O que Steven Wilson faz é mais que uma gravação, é mais que um concerto. Steven Wilson faz arte. Você provavelmente não conhece Steven Wilson.

O Jesse Schell afirma em seu livro que o game designer é o que temos mais próximo de um renascentista no século XXI. Esta frase sintetiza a necessidade que a função requer de conhecer diversos processos de criação para se fazer um jogo. Tem outra coisa em comum entre game designers e artistas renascentistas: o mecenato. Videogames ainda tem artistas que conseguem patrocínio por quererem levar a mídia a um outro nível de excelência. Isso é praticamente impossível para os Steven Wilsons da música, da pintura e de outras artes. O patrocínio vai cada vez mais de Andy Wahrols da vida e suas “pop arts” (as aspas aqui reforçam meu desprezo pelo termo). O resultado disso é, naturalmente, o distanciamento do público com a arte e a consequente busca pela mediocridade.

steven wilson lixo

Nossos Steven Wilsons estão aí, conseguindo dinheiro para fazer seus melhores trabalhos: são Hidetaka Miyazaki e sua série Souls, Hideo Kojima, Koichi Hayashida (o melhor designer da Nintendo na atualidade, por mais que se fale mais em Miyamoto, Tezuka e Aonuma), Jonathan Blow e vários outros. Os videogames são hoje a ferramenta que melhor permite a aproximação do público com a arte e, talvez por esta ação de um público pouco ciente desta realidade, seja a midia que mais fatura, a frente do cinema e da música. Talvez seu surgimento recente tenha o distanciado dos resultados da Escola de Frankfurt.

Sendo assim, é triste que nós não estejamos vendo os videogames como arte, mas sim como uma soma simples de gráficos + jogabilidade + diversão. O máximo que se promove de discussão além disso é meramente política. Mas aí é discussão sobre política, e não sobre a mídia. Ainda temos poucas pessoas no mezanino e muitas na massa.

Os artistas do videogame estão se aprimorando constantemente para levar a mídia para outro patamar, mas é importante que isso seja reconhecido e explicitado publicamente, para educar o público, que então será capaz de expressar melhor aquilo que esperam de um jogo. Isso é exatamente o contrário do que o jornalismo está fezendo hoje. Há pouco, fez um ano que um vídeo sobre “jogos leite com pêra” foi publicado, afirmando que não se fazem jogos difíceis como antigamente. Existe aqui uma inversão de papéis: bons jogos difíceis não buscam ser difíceis, sua dificuldade é consequência de uma série de decisões de design que moldam aquilo. O resultado desse tipo de crítica é uma idolatria ao horroroso Battletoads ou criação de jogos que são difíceis por ser, como Dark Souls 2 e Lords of the Fallen. A falta de embasamento atualmente cria sopa de “recursos da moda”, como Dying Light e boa parte da biblioteca da Ubisoft.

Nós aqui somos um site de nicho, sabemos que nem todo mundo quer ir além nos videogames. Mas sabemos que são poucos os espaços onde você pode fazer isso, e por isso existimos. Como bem afirma nossa missão, nós queremos ser um clube do livro, não um tópico de grupo de Facebook.

Recomendo:

Escrito por Roberto Rezende

Odeia jornalismo.