IIIPAC

Você pode apenas experimentar essa obra sem qualquer conhecimento prévio da anterior e com certeza vai ter uma ótima experiência, tamanha coesão e ótimo trabalho realizados aqui.

Mas quero falar um pouco da primeira, de qualquer forma. Ela era um trabalho de excelência em sua própria mídia, tanto aperfeiçoando formas já existentes quanto forçando limites da linguagem. Ela também é amplamente conhecida por fazer ótimo empréstimo de recursos cinematográficos na narrativa, evocando mais drama à construção das cenas.

“Nossa rapaz imagina um filme disso!!”

Mas é exatamente o fato de a obra anterior parecer e até se vender como quase, mas NÃO SER um filme, que a torna especial nesse sentido. Porque as cinematografias contidas ali apenas sugerem uma película, que se forma no nosso imaginário de maneira complementar à narrativa principal. Existir mesmo um filme baseado nisso seria a morte desse exercício e, consequentemente, da obra.

A segunda obra, foco deste texto, no entanto, força essa barreira de outro jeito. Ela ainda possui recursos do cinema em muitas cenas, principalmente nos interlúdios, mas seu núcleo se constrói muito mais essencialmente ao redor da linguagem própria de sua mídia. Se um filme sobre a primeira mataria a obra, um sobre essa segunda já nasceria morto e acabaria de vez com quaisquer vestígios de boas ideias.

Hit me!

Porque a narrativa aqui realmente só existe em função de seu próprio meio, com o objetivo de subvertê-lo e depois expandi-lo.

when the four corners of this cocoon collide
you’ll slip through the cracks hopin’ that you’ll survive
gather your wit, take a deep look inside
are you really who they idolize?

Lembremos que essa obra, antes de seu lançamento final, teve um pedacinho de si divulgada ao público. Parecia ser a continuação direta e até previsível (mas não mal vinda, nunca) da primeira, com um momento grandioso anunciando algo como uma grande batalha no final, que nos fazia imaginar para onde e como toda aquela experiência seria levada adiante e expandida.

Era tudo engodo.

…to pimp a butterfly.

O pré início e o primeiro ato da narrativa são sim bem cinematográficos e formam forte conexão com o lançamento anterior. Conta sobre um personagem já conhecido, famoso, legendário até. Tem esses parceiros aparecendo e dando conselhos por ligações telefônicas, como havia antes. Tem um vilão, também, já conhecido nosso, que continua em sua busca por poder, manipulando, à sua forma sutil, diversas personagens e acontecimentos.

what you want? you a house you a car?
40 acres and a mule, a piano, a guitar?
anythin, see, my name is Uncle Sam, i’m your dog
motherfucker, you can live at the mall

Tem um clima de conspiração acontecendo que nos faz imaginar a superexpansão que virá a seguir.

Mas é, era só para despistar.

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Tudo rapidamente evolui do comecinho que segue a fórmula linear e dramática Hollywoodiana até uma estética experimental que, dada a maneira como se desenvolve, fica claro que só podia existir não sendo um filme.

Ao final, testemunhamos a primeira reviravolta: o herói, que não é mais valioso para quaisquer que sejam as forças que controlam o cenário, é institucionalizado, descartado e transformado em vilão. A introdução então acaba e o que vem depois não traz a precipitada superexpansão. Em vez disso, a coisa toda segue para algo mais condensado. Somos colocados sob o ponto de vista de um único personagem, similar ao da lenda em muitos pontos, mas ainda assim protagonista de sua própria narrativa. Ele recebe ligações, também. Mas reage com mais exaltação. Tem esses muitos personagens que vão aparecendo no caminho partilhando suas histórias e fazendo-o entender mais sobre si mesmo, também. Ele conhece e se inspira na história do herói, por isso se cuida para não cair no mesmo bueiro da lenda. Mas ele cai em outros, pessoais, e é isso que a narrativa que segue vai explorar.

i remember you was conflicted

Esse cara de agora tem seu próprio caminho e ideal que o mantém na luta. Ele é forte, é sim. Ele já contém em si todo o DNA e a cultura dos que vieram antes. Ao longo da jornada, a história maior e sua história individual vão convergir, afetar e moldar uma a outra. O protagonista será questionado por seus parceiros e adversários sobre seu caráter e vai chegar ao ponto de ele mesmo questionar sua própria autenticidade e o que o livre arbítrio significa dentro das muitas formas e camadas de paredes nas quais se encontra.

O formato como isso tudo é narrado é o grande negócio aqui. Eu consigo imaginar uma pessoa bem idiota reclamando que pagou preço cheio numa obra que tem várias repetições do mesmo trecho a fim de estender sua duração. Sempre tem uns. Sempre vai ter gente reclamando de qualquer backtracking em jogo, mesmo que às vezes ele funcione bem para nos fazer sentir a diferença entre os poderes do boneco e habilidades nossas do começo e do fim. Sempre vai ter aquele cara que reclama de quão lixo é quando o vocalista aponta o microfone pra plateia no refrão, “o cara ganha uma nota pra fazer o show e ainda é a gente quem canta por ele?!”

Essas pessoas não entendem nada da vida.

i remember you was conflicted
misusing your influence
sometimes i did the same

Aqui, estamos nesse cenário que não se estende de forma linear. Não há backtracking ou reprise, como na primeira obra: em vez disso, toda a progressão se dá de forma circular, desenvolve-se conforme a gente vai percorrendo mais uma vez o mesmo caminho. A cada volta, o cenário, embora delimitado pelas mesmas paredes, muda sutilmente em seu conteúdo, e vamos avançando um pouco mais na narrativa. Como uma roda girando em um eixo, periodicamente refazendo o mesmo ciclo, mas resultando num deslocamento para a frente. Então cada volta é um avanço por meio do qual ampliamos progressivamente nosso conhecimento do todo e as situações pelas quais já passamos vão enriquecendo em sua gama de significados.

É meio que aquilo de um passo para trás a fim de dar dois ou três para a frente.

i remember you was conflicted
misusing your influence
sometimes i did the same
abusing my power, full of resentment
resentment that turned into a deep depression
found myself screaming in a hotel room

Existe essa trama se desenvolvendo por todo lado, mas o que nos mantém presos aqui são os conflitos pessoais que isso impõe ao nosso novo herói. Porque as idas e vindas entre as paredes se fazem também na exploração do personagem como cenário, cercado por suas próprias paredes. Vamos ver cenas nas quais ele é conflitado pelo seu passado distante, intercaladas com o agora para então pular para um passado mais recente.

loving you is complicated aaaaah

A cada interação do nosso protagonista com os demais personagens, descobrimos mais sobre ele, sobre onde ele se localiza em relação aos fatos da obra anterior e na grande história que vem de antes dela; (de um lado) sobre como os acontecimentos maiores nos quais ele se meteu afetam sua vida pessoal, e (de outro lado) sobre como sua individualidade também afeta o rumo que as coisas todas vão tomando.

Parte dos questionamentos e, ao mesmo tempo, andamento da coisa se faz em função desse diálogo que, a cada trecho avançado, o novo herói vai desenvolvendo com um interlocutor sem identidade. Em certo ponto, na minha primeira vez, eu cheguei a questionar se o outro não seria ele mesmo — inclusive, se todos ali não seriam somente fragmentos projetados dele mesmo.

Acaba que não, eles são outros mesmo. Não que isso anule essa interpretação. Às vezes, eu ainda revisito tudo e me deixo levar por esse caminho de pensamento.

A trama e o vilão também vão evoluindo até algo além da figura apresentada no primeiro ato. O mal aqui se revela abrangente e essencial, parte de algo maior e mais antigo, de uma manipulação que ao mesmo tempo afeta todo o sistema e também cada indivíduo que faz parte dele.

what you want, you a house you a car?
40 acres and a mule, a piano, a guitar?
anything, see my name is
Lucy, i’m your dog
motherfucker, you can live at the mall

Até que, finalmente aquele pedacinho divulgado antes do lançamento acontece. A surpresa é que quando ele vem, não parece deslocado ou colocado lá só pela geração do hype que a divulgação causou, mas acontece naturalmente, ele pertence sim ao todo, ele é parte essencial do desfecho da história, mas agora melhor compreendido e mais expansivo, por conta de tudo que acompanhamos. Ele consolida a união entre nosso aspirante a herói com seu grande ídolo do passado, que passou pelas mesmas lutas, a seu modo.

you vandalize my perception but can’t take style from me
and this is more than confession
i mean i might press the button just so you know my discretion
i’m guardin’ my feelings, i know that you feel it
you sabotage my community, makin’ a killin’
you made me a
killer.

O sentido completo dessa cena exposta no contexto se dá no extenso diálogo final no qual ela desemboca, fechando a obra e concluindo aquela conversa que vínhamos acompanhando aos bocados. Pode soar ingênuo ou clichê, brega talvez, se a gente se esquecer de toda a experiência que o antecedeu como preparação para isso. Tem um pouco do sonho americano e do poder do indivíduo, mas também muito sobre o poder da união e da luta por uma causa. Tem uma mensagem sobre escolher algo em que acreditar e deixar isso te guiar e te dar forças, mas nunca te aprisionar. Tem bastante sobre escolher o que fazer das suas habilidades e aceitar as consequências dos seus atos como forma de modelar o próprio destino e assim, como consequência natural, tomar parte na construção da cultura.

i remember you was conflicted,
misusing your influence
(…)
found myself screamin in the hotel room
i didn’t wanna self-destruct
the evils of Lucy was all around me
so i went runnin for answers
until I came home
but that didn’t stop survivor’s guilt
going back and forth trying to convince myself the stripes i earned
but while my loved ones was fighting the continuous war back in the city,
i was entering a new one…

Vê? Não é que aquelas coisas que a gente viu antes do lançamento final da obra eram, de fato, enganação. Elas pareceram ser isso ao longo da jornada porque era necessário que parecessem assim, para que nos distanciássemos um pouco dessas preconcepções épicas (épicas mesmo, não como expressão geek) de heróis, de causas mundiais, de DNA e de legado que já estavam plantadas no nosso senso empírico, a fim de acompanharmos com mais organicidade o caminho protagonista.

Era necessário testemunhar aquele capítulo introdutório do herói para depois sermos jogados em um mundo sem heróis e vivenciarmos juntos o nascimento desse novo, de sua fase lagarta até sua saída do casulo. Ele e nós já sabíamos o destino dos que vieram antes; mas só sentimos isso na pele fazendo nossas próprias escolhas.

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O principal conflito proposto é sobre a liberdade que um indivíduo tem em si mesmo e o que faz de suas escolhas. Até onde ele é somente uma lagarta colocada num casulo perfeitamente projetado? Ele pode escolher entre seguir pelo caminho no qual a corrente o empurra ou ele é capaz de ser si mesmo? E esse ‘si mesmo’ é algo realmente orgânico como uma proposta ou apenas um resultado de pré-programações culturais? E então, suas escolhas e o que ele produz a partir de seus talentos pode ser considerado algo autoral ou ele é somente o meio condutor?

São questionamentos comuns, na verdade, mas que a condição do herói expõe com figuras mais contundentes. Enquanto a obra anterior questionava se nosso destino era condicionado pelo nosso nascimento, pelo DNA e pela missão que nos era dada — ou forçada sobre nós — essa aqui vai questionar aquilo que, no constructo humano, torna-se tão forte quanto a genética.

Cultura.

Ideias. Nós como seres humanos já somos muito mais fruto da cultura construída que da raça propagada. As missões que nós temos — ou não — que fazer ou aceitar na vida têm raízes que dependem muito menos da nossa forma e muito mais do meio no qual estamos inseridos. O mesmo vale para os nossos ideais, reações e escolhas. Qual o impacto de escolher entre o corredor da esquerda ou da direita quando não somente eles já tinham sido postos lá para você há muito tempo, como as próprias motivações que podem fazer você escolher por um ou outro já vinham sendo construídas antes mesmo de saber-se qual dos seus pais nasceria macho e qual nasceria fêmea?

É isso que nós, no papel do herói, descobrimos no final.

Embora a última frase da obra termine com um ponto de interrogação.

The caterpillar is a prisoner to the streets that conceived it
its only job is to eat or consume everything around it,
in order to protect itself from this mad city
while consuming its environment the caterpillar begins to notice ways to survive
one thing it noticed is how much the world shuns him,
but praises the butterfly
the butterfly represents the talent, the thoughtfulness,
and the beauty within the caterpillar
but having a harsh outlook on life the caterpillar sees the butterfly as weak
and figures out a way to pimp it to his own benefits
already surrounded by this mad city the caterpillar goes to work on the cocoon
which institutionalizes him
he can no longer see past his own thoughts
he’s trapped
when trapped inside these walls certain ideas take roots,
such as going home, and bringing back new concepts to this mad city
the result?
wings begin to emerge, breaking the cycle of feeling stagnant
finally free, the butterfly sheds light on situations
that the caterpillar never considered,
ending the internal struggle
although the butterfly and caterpillar are completely different,
they are one and the same.

what’s your perspective on that, Pac?

Pac?

Pac…?

Escrito por Caio Oricchio

o Noel Gallagher dos textinhos de jogos, principalmente no que tange aos backing vocals.