I Am Setsuna

Sabe aqueles momentos quando duas pessoas estão passando por um momento de tensão e uma vira pra outra diz “Vamo ficar calmo. Um dia a gente vai rir disso”? Eu não sei se eu sou pessimista demais mas porra, sério, se você estiver do meu lado em uma situação assim em que eu esteja nitidamente tenso, não me vem com essa. O sujeito precisa ou ser muito frio ou muito autoconfiante pra soltar uma coisa dessas. Quando é em níveis mais delicados, chega a beirar o sadismo. Quando é caso de vida ou morte, eu prefiro pensar que a pessoa é simplesmente iluminada por alcançar tamanho nível de serenidade, onde o otimismo transpõe a barreira criada pela tensão a ponto do outro sujeito se sentir minimamente seguro.

Essa frase que citei ai em cima é um tanto curiosa. Em momentos ruins, imaginar que o futuro será melhor e aceitar esse pensamento nos enche de determinação e nos traz uma perspectiva de que aquele momento difícil, seja de qual forma for, vai passar. Olhando ao contrário, em uma linha de pensamento um pouco mais triste, olhamos pra trás e dizemos “Puts, que saudade Daqueles dias. Esses tempos não vão mais voltar”. E aí a gente passa a tentar recuperar o que está ao nosso alcance para trazer os sentimentos bons desses tempos, ou tentar viver eles de novo exatamente como foram. É impossível reviver tempos que já se foram. Recriá-los geralmente são tentativas desesperadas e minimamente planejadas, o que vai contra os princípios do que tornam coisas inesquecíveis, bem…inesquecíveis. Dá pra buscar isso de outras maneiras, claro. Pensando bem, ao menos o resultado disso não é necessariamente melancólico. É bom lembrar do que compõe nossa essência e do que faz parte de nós, enquanto pessoas ou o que fazemos, desde que isso não nos amarre no tempo.

E eu acho que isso resume bem o que é I Am Setsuna.

Na verdade, isso serve também pro Tokyo RPG Factory, estúdio da Square que deu vida a I Am Setsuna e que tem como foco fazer RPGs Como Os Da Era de Ouro Dos RPGs. Uma equipe dedicada inteiramente a reviver os melhores dias da Square não é exatamente desalegre. Talvez seja só saudosismo entusiasmado por poder explorar conceitos de outras eras em um contexto mais avançado, tecnologicamente falando, especialmente quando falamos de ferramentas de desenvolvimento, engines e essas modernidades todas. Também não dá pra dizer, nesse caso, que se apegar ao passado é necessariamente ruim. Digo, olhe o legado da Square Enix (ou Squaresoft, que é um nome muito mais elegante). Seria um desperdício abandonar e esquecer dias tão gloriosos. Aqui que entra a questão: A Square-Enix, está olhando pra trás querendo voltar no tempo com desespero ou buscando incentivo no que fez de melhor para seguir direções novas? A Square não é mais Squaresoft. Agora é Square-Enix, pois esse foi o rumo que o Mundo Dos Negócios tomou. Não tem como voltar, e isso não se traduz em algo fatalmente inferior.

‘Setsuna’ é o nome da protagonista do jogo e tem dois significados: “Sentir tristeza” e “Um momento no tempo”. Tempo e tristeza são os pilares de tudo o que acontece aqui. É um RPG japonês de batalhas por turno. Não poderia ser diferente, mas possui suas particularidades. Eu gosto do ‘Momentum Mode’, que você ativa apertando quadrado no momento certo após confirmar uma ação (golpe, magia, etc) no menu. Ativar o momentum mode exige alguma precisão e isso traz alguns bônus variados nas lutas. Por exemplo, se ativar o momentum usando Wall, o efeito vale pra todos os personagens do seu grupo. Se usar Lightning com momentum, pode paralisar o inimigo, e por aí vai.

Eu imagino que a equipe do Tokyo RPG Factory (que deve ter umas dez pessoas no máximo) tenha olhado pro passado dos seus superiores (no caso, a Square) e seguido a ‘cartilha’ que, olha só, justifica a sua própria existência. “Lembra daquele jogo que mexia com o tempo? E daquele outro que era meio Revolução Industrial? Putz! Esse era pesado ! Bora olhar esses mais de perto”, e aí de repente cada um puxou um Super Nintendo dali e foi atrás dessas coisas. E aí Setsuna precisava de mais. “Tem que ter muita neve no jogo”. E tem neve pra tudo que é lado. Na mesma proporção da neve, tem piano também, porque, bem, o ponto é ser melancólico. Mas tanto a neve quanto o piano são tão onipresentes quanto belos. Pra falar a verdade, tem poucas coisas mais etéreas que uma boa melodia de piano. Sério, ouve isso aqui:

Não é muito difícil perceber que no Tokyo RPG Factory (e consequentemente em Setsuna) há mais respeito pelo legado dos seus superiores do que por novos caminhos. Como eu disse há pouco, com certeza não vai fazer mal buscar inspirações nessas coisas, desde que isso não nos resuma em emular coisas grandiosas que hoje, na maioria dos casos (graças a Deus), descansam em paz.

E eu digo isso porque, apesar de tudo, eu realmente gostei de I Am Setsuna. Eu não me lembro da última vez que senti O Que Se Sente Jogando JRPGs. Explico: coisas que, de tão pequenas, as vezes não lembramos ou sentimos falta até que nos mostram de novo. É caminhar pelo mapa e entrar em uma cidadezinha, começar uma musiquinha diferente e ir de casinha em casinha conhecendo melhor o que se passa por ali. É renovar seu estoque de itens e comprar armas melhores no armazém mais próximo, conversar com o povo local e conhecer suas histórias. É ver que existe vida naquelas cidades e em cada canto dali. Pessoas indo e vindo, histórias sendo contadas, mitos sendo revelados (ou derrubados). E aí você continua sua jornada, derrota inimigos, passa por cavernas, conhece personagens e suas histórias. Isso tudo cria uma atmosfera que é difícil de desapegar. Eu sinto saudade dessas coisas.

Por mais que seja sim uma obra que existe, antes de qualquer coisa, para honrar um legado e que tenha alguns pontos sem muita coesão (o roteiro, por exemplo), ainda tem seu próprio tom e, por que não, magia. Ao invés de sentirmos que estamos voltando ao nosso lar, é mais como passar em frente a casa que você morou na sua infância e ver que outras pessoas vivem ali, nos fazendo sentir o amargo de não podermos mais estar lá, mas com o alívio da certeza que nem mesmo o tempo ou a neve são capazes de apagar certas memórias.

 

Escrito por Wesley Cesário

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