Game of Thrones: a Telltale Game Series

Robôs como Wall-E ou BB-8 e “bichinhos” tipo Yoshi ou Bob Esponja estão longe de serem coisas que confundimos com humanos reais, por isso é comum que os assimilemos como serezinhos, sentindo bastante empatia por eles — provavelmente por isso o apelo deles para as crianças é forte. Conforme as formas dos bichos vão se assemelhando mais com as formas humanas — C3P-O, o Bob Esponja musculosão que aparece no filme ou o Solid Snake dos últimos Metal Gears– tendemos a achar bem legal mesmo. Uma linha que medisse nossa empatia por esses bonecos estaria crescendo conforme eles ficasse mais bem feitos e realistas… mas só até um ponto.

Esse ponto seria aquele em que os atributos do modelo estão muito mas muito perto mesmo de humanos, mas ainda não estão . Nesse ponto a linha no gráfico despenca e a tendência é que sintamos repulsa, desconforto, estranheza pelas criaturas, tomando-as como sub humanos ou humanos defeituosos. Isso acontece por exemplo com a garota propaganda 3D da Magazine Luiza e com manequins ou bonecas extremamente realistas — e palhaços, talvez por isso as crianças sintam medo deles. Essa região em que a empatia despenca é chamada, na estética, de Uncanny Valley, o Vale da Estranheza.

Os modelos dos personagens e cenários de Game of Thrones — a Telltale Game Series não caem no vale da estranheza. A verdade é que eu achei o visual muito bom. O estilo cartunizado que marcou os já antigos Walking Dead e Wolf Among Us da Telltale dá lugar a bonecos “mais tridimensionais”, mas a adição de um filtro de luz e sombra meio aquarelado cuida de construir um jogo bem bonito de se assistir, com animações que capturaram as essências dos personagens — ou melhor, dos atores: Cersei se expressa torcendo os lábios e mostrando os dentes para demonstrar desdém, Tyrion carrega seu ar blasé e se expressa pelo sacudir de ombros, Margaery fuzila você com o olhar e o Jon Snow simplesmente não tem expressão — igualzinho à série da HBO.

Talvez, por ele ser tão apegado à proposta de promover o seriado, você acabe dando umas escorregadas pelo famoso vale do qual eu falei, mas não da maneira usual pela qual ele é comumente usado, e sim com uma certa licença poética que eu vou me permitir, que é uma linha medindo o quanto ele vai se aproximando de ser um jogo… até o ponto em que sempre nos lembramos de que é um material promocional da série.

Eu caí duas vezes nesse barranco durante os seis capítulos de Game of Thrones:

Meu primeiro Barranco da Estranheza em Game of Thrones: a Telltale Game Series

Eu joguei o primeiro capítulo assim que saiu, pelo jogo em si, sem ter assistindo nem lido as obras originais. Eu consegui entender o pano de fundo da coisa toda — meus avatares em Westeros eram membros e agregados de uma antiga e nobre família de senhores feudais d’O Norte, os Forrester, famosos pelas florestas de Ironwood que ficavam em suas terras, cuja madeira, trabalhada por eles, resulta nos escudos e armaduras dentre os mais fortes do mundo. Acontece que essa família era aliada e protegida de uma família maior do famoso “Norte”, os Starks, que recentemente haviam sofrido golpes políticos até decaírem completamente. Então a minha família estava sofrendo os efeitos disso, recebendo ataques vindos de todos os lados. Cabia a mim fazer escolhas com cada membro a fim de evitar isso — ou pelo menos encontrar o jeito “menos pior” de se adequar a esse novo cenário.

Gostei bastante da plot e de fazer algumas escolhas em diálogos que foram colocadas diante de cada um dos personagens. O jogo te põe no controle de um, apresenta uma cena inteira com ele e desenvolve uma pequena trama, daí encerra parcialmente, mostra outro local e te põe no controle de outro personagem ligado aquele. Depois passa para outro e volta para o primeiro, e vai alternando, etc, como uma série mesmo.

As partes de ação não são as melhores que a Telltale já fez. São scriptadas de um jeito que não me fizeram sentir nada significativo, só mexendo uns botões pra seguir os filminhos e as possibilidades são somente “morrer” e ter que repetir a sequência ou “sobreviver” e seguir em frente, em vez de tomar umas porradas mas continuar lutando com desvantagem. Mas as cenas em si só melhoram ao longo dos capítulos seguintes, então até que ficou tudo beleza, acontece.

Já as partes de exploração do cenário nunca melhoram e serão sempre desnecessárias. Não há nenhum item ou informação que você obtenha ou diálogo que possa reforçar alguma relação ou modificar algo posteriormente. Simplesmente não conseguiram utilizar essa mecânica para algo no contexto da franquia, e acho que só ficou aí porque devem ter achando radical demais tirar um aspecto clássico dos adventures. Esse foi o primeiro indício de que esse jogo acabaria preso no dualismo entre ser um jogo por si e ser um simulacro da série. Mas eu não notei, à princípio.

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Eu não notei porque esses momentos são até que raros, e se tivessem tirado a “exploração” e as lutas, elas não fariam a menor falta, porque o bom mesmo são as partes focadas no diálogo puro. Isso quer dizer controlar o personagem em King’s Landing (tipo a Côrte onde fica a nobreza) e o jovem Senhor no Norte. É a medida certa entre tensão, raciocínio rápido, planejamento e diversão escolher as falas e ações a fim de ir pouco a pouco construindo a personalidade dos seus bonecos e a forma como as pessoas os veem. Eu acreditei muito em todos os personagens e situações, não só pelo visual mas pela forma como eu interagia com eles e como os diálogos se enrolavam e desenrolavam. A linha de empatia pelo universo do jogo foi subindo, subindo…

Até que eu estava tão imerso nela que de repente caí com um baque, quando eu não entendi muito bem algumas reações de certos NPCs, como se fossem um chefão que você bate, bate… mas ele não reage fisicamente aos golpes, só recebe o dano da barrinha de vida. Isso foi estranho e me fez sentir o primeiro desprezo, uncanny — mas não pelos personagens, e sim pelo jogo em si, como se ele só tivesse me dado opções para eu não passar muito tempo sem apertar nenhum botão. Aqui eu percebi que ele estava tentando ser um jogo, mas não conseguia deixar de querer parecer demais com a série.

Ainda assim, o final do capítulo me fez ficar com a franquia na cabeça, então meses depois, surgiu a oportunidade de assistir e, em parte por já ter uma noção das coisas pelo jogo, eu decidi ver Game of Thrones e finalmente entendi por que aquelas situações tinham sido estranhas: os personagens canônicos que faziam aparições na história não podiam sair muito do roteiro. Bom, pelo menos agora, sendo da fandom, eu entendia os motivos de cada um e conseguia assimilá-los com muito mais empatia.

Só que, mais tarde, esse primeiro valley que eu achava ter superado retornaria ainda mais uncanny.

Meu Segundo Barranco da Estranheza em Game of Thrones: a Telltale Game Series

Depois de assistir à série, ganhei o jogo completo. A história foi se desenrolando e tal, muitos momentos TENSOS e bem marcantes no desenrolar das coisas me fizeram sentir aquele gostinho conhecido das situações que fazem cada capítulo debutante representar um pico de audiência na HBO.

Se há algum problema aqui, talvez seja na forma como eles criam o cenário para esses momentos. Eu entendo que eles não nos deram o controle das personagens canônicas para poder conduzir a história do jogo livremente sem afetar no andamento dos episódios da televisão e poder ter todos funcionando na mesma timeline.

Acontece que a forma escolhida para conciliar o “fugir do roteiro” com o “recriar as situações da série” ficou mais parecendo uma versão alternativa, um piloto da série, do que uma ramificação do universo. Os personagens acabaram sendo arquétipos manjados: o senhor feudal jovem que assumiu às pressas e não tem respeito do povo; o jovem honesto e quietão que vai para A Muralha; o ex cavaleiro rico em sarcasmo e que não honra os votos.

A sensação mais próxima talvez seja a de se estar vendo uma fanfic com verba alta para produção. Você não pode decidir assassinar o rei de tal lugar. Ou melhor, se isso for colocado diante de você, até é possível dizer “Sim eu quero conspirar com vocês para assassinar o rei”, mas você nunca vai consumar o fato, porque isso não acontece na série — e digamos que aconteça na série, daí seu personagem vai acabar estando em algum outro lugar e as ações serão feitas pelos personagens que fizeram isso na série.

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A questão aqui é que isso não faz o jogo ruim, mas estranho. Na série, acompanhamos tramas sendo construídas, personagens aspirando, desenvolvendo-se… e então eles são mortos ou impedidos. Mas isso é um grande tchans da série, que nos lembra a diferença entre o épico, a história e o romântico, a construção da história. E isso está presente no jogo. O que acontece de estranho é que ele constrói a trama, desenvolve o personagem, vai subindo a tensão… e tudo é bloqueado pelo cânone que não pode ser quebrado.

Eu lembro de isso acontecer em Walking Dead, mas uma vez só e no começo e só se você rejogar aquela parte — e os jogos da Telltale não são feitos para serem rejogados; depois os personagens canônicos simplesmente se tornavam desimportantes e o jogo seguia seu rumo. Mas GoT tenta se manter sempre andando lado a lado com os acontecimentos, locações e personagens da série, e acaba se tornando um quase jogo e um quase Você Decide mas que não chega de fato a decidir ser nenhum dos dois, e a coisa desbarranca por uns instantes.

É o mesmo paradoxo de contratar alguém famoso (que não seja dublador) para dublar um personagem: se ele apenas for ele mesmo em vez de ser o personagem, resulta em uma dublagem ruim, afinal o bom dublador é inaudível e invisível — ele deve se transformar no personagem. Mas se ele se transforma, fazendo um bom serviço, perde o ponto ter contratado ele, já que o público não vai reconhecer a voz.

A raiz do mal não é o famoso, mas o briefing que originou a situação. Ao contratar um famoso, os produtores querem destacar a personalidade acima da obra. O resultado é um apelo marqueteiro com resultados rápidos, mas um trabalho que não é necessariamente bom. Se fosse o contrário, contratassem o famoso, mas com o foco maior na obra, e ele fosse tratado como qualquer dublador, auxiliado corretamente a deixar de ser ele mesmo, talvez o retorno imediato fosse menor mas, com o tempo, conforme fosse correndo a notícia de que “quem dublou Link na versão ptbr do novo Zelda foi o Marcos Pasquim” “Sério? Meu deus, não parece, tá irreconhecível”, o apreço pela obra e pelo trabalho no geral seriam reconhecidos.

Da mesma forma, jogos franquiados costumam cair no bueiro do “promover a mídia original” a fim de garantir as vendas com o público que, no caso, assiste a série, e não com os que procuram um jogo sólido e sustentável por si mesmo.

Embora GoT seja sólido.

Porém um sólido frágil.

Então vamos supor que (A) você vem atrás de Game of Thrones da Telltale porque assiste e gosta do seriado de TV, então provavelmente está ansioso pela próxima temporada. Ele foi claramente feito para atrair para o mundo dos games o público do enlatado baseado na obra de George Martin e cumpre mais do que bem seu papel — talvez melhor do que a própria HBO fez com os livros — colocando o jogador em situações semelhantes às que fizeram os espectadores da série de TV arregalar os olhos agitar os braços gritar pegar o celular e tuitar ou gravar snapchats e passar a segunda-feira inteira no trabalho comentando sobre os acontecimentos do episódio anterior.

Então sim você vai se divertir muito com o jogo e vai ficar ainda mais ansioso por episódios da série. Mas vamos supor que (B) você vem para o jogo pela experiência lúdica em si, conhecendo ou não a série.

Aí ele pode quebrar. Você pode se deparar com esses buracos e pode ser que você fique lá no fundo do vale, caído e insatisfeito. Ou pode ser que você consiga abstrair, e essa seja só uma parte pedregosa no caminho rumo ao topo, ao êxtase trazidos pelo final de cada capítulo, que por mais estranhezas que você enfrente antes, sempre conseguem dar aquela chacoalhada gostosa nas coisas e ficar na sua cabeça. Você acaba com vontade de comentar com amigos, de perguntar quais opções eles escolheram, de discutir, como com a série. Então o resultado pode ser o mesmo da suposição A.

O engraçado é como o jogo no fim cumpriu seu papel, não como jogo mas como promoção da série, porque eu acabei assistindo GoT e depois jogando todos os capítulos e é bem provável que, quando sair a segunda temporada da Telltale, eu vá jogar. Eu só deixei de procurar o Bob Esponja Musculosão que é o Walking Dead da TT. Eu não espero dele mais do que conteúdo complementar, um Amiibo da série da HBO, e ele fica bonito, um bichinho empático e divertido.

Escrito por Caio Oricchio

o Noel Gallagher dos textinhos de jogos, principalmente no que tange aos backing vocals.