Ei, você já acabou?

Você liga seu computador. Você é da polícia. A julgar pelo o que nos é apresentado logo no começo você está no meio de uma investigação — uma janela aberta no seu desktop mostra a palavra MURDER em uma barra de pesquisa. Se você tem um pequeno senso de cautela provavelmente vai notar que tem dois arquivos com o nome READ ME na área de trabalho. Abrindo esses arquivos o tutorial (??) é desbloqueado. É bem legal se referir ao boneco “principal” do jogo como “você”, né? Um pouco de brincadeira de mau gosto também, admito.

Depois de ler os arquivos — se o boneco é uma pessoa precavida, que ao invés de pensar “uau, MURDER, vamos ver o que aparece”, antes olha o que tem na área de trabalho (aproximadamente 25 % dos bonecos de Her Story, segundo estatísticas que podem ou não se encontrar naquele computador) caso contrário, entramos na introdução do jogo. É simples. É bem simples. Tem quatro vídeos, graças ao tutorial sabemos que tem quatro vídeos lá porque essa mulher que está nos vídeos fala “MURDER” em todos os quatro, mas não é difícil de perceber isso sem ler nada. Palavras, vídeos, pesquisa, investigação. Com 2 minutos assistindo provavelmente já dá pra saber tudo o que há de básico em Her Story. É aquilo que chamam de “GAME DESIGN” ou coisas assim. Você tem regras, limitações e com isso tem que montar o quebra-cabeça dos vídeos. Cada palavra que o boneco audaciosamente deduz que vai trazer resultados e faz uma pesquisa com ela mostra os vídeos em que a mulher a tal palavra. Dentro dessa pesquisa tem uma CONDIÇÃO. Só pode-se visualizar 5 vídeos.

Essa condição é muito importante — sem ela o jogo talvez não fosse tão redondinho assim, afinal o que impediria alguma pessoa, que provavelmente é mau caráter também, pegar alguma palavra como “but” ou “I” e coisas simples assim logo no começo do jogo e visualizar tudo o que há de disponível com elas (se você já viu quase tudo, entendemos sua decisão). Seria uma Grande Busca, com certeza . Com isso há mais segurança de que a maioria das palavras usadas durante o jogo serão as relacionadas com personagens, acontecimentos, insinuações e coisas do tipo (agora sim, pode dizer que é um detetive [e que é arte]). Por incrível que pareça, esse ato de procurar palavras e prestar atenção em vídeos de uma mulher falando é o que chamamos de gameplay (finja aqui que separar em gameplay, história, entre outros é algo de relevância). Ah é! Eu já falei que essa mulher dos vídeos é uma atriz (Viva Seifert) e que todos eles são FMVs? Provavelmente o único uso decente dos mesmos em um vídeo game — você ainda pode considerar Pepsiman? — E nossa, é bom que goste dela. Vão ser pelo menos 3 horas cara a cara com ela falando. O bônus é que é tem um vídeo adorável de ela cantando uma música, não vou falar qual música, no violão. Recomendo não acabar o jogo antes de ver isso. Se bem que é muito difícil não ver isso numa primeira jogada.

Eu poderia elogiar tudo o que tem em Her Story, sobre como ele me atingiu num nível pessoal — olha! Dessa eu juro que não foi por nenhuma mensagem temática ou coisa assim e pelo jogo em si — ou como ele fez coisas desastrosas com duas folhas de caderno que eu peguei para organizar tudo o que pensava durante os vídeos. Nesse processo eu descobri que minha cabeça não é muito organizada não. Isso que eu estava para comentar! O texto. Ah, o Texto. Com T maiúsculo. Em alguns momentos é bem possível esquecer que estamos no meio de um mistério [isso é mentira dependendo do quanto o boneco entra no clima] e achar que só estamos conversando com uma mulher, muito bela por sinal — cuidado com o flerte, ela é suspeita. Mas ele não vai deixar barato. Ainda se lembra das pesquisas, das palavras?

Percebeu? É imprescindível que se preste uma atenção extrema em cada pedacinho de evidencia, cada palavra que sai da boca dela, afinal estamos falando de palavras (pode pesquisar frases daí, o que exige também o exercício de abstrair frases) e cada um desses pedacinhos que pesquisamos nos levam mais e mais perto de uma conclusão até que alguém chama no Chit-Chat — em tradução livre: MSN — essa pessoa é S.B, olá Sam Barlow [essa é a hora que você pesquisa Sam Barlow no google] e pergunta:

Ei, você já acabou?

O título desse texto é uma parte do último dialogo de Her Story — também uma mecânica muito importante. É curioso pensar que, para uma obra simples e bem direta em seus momentos iniciais (mais sobre isso depois) ele termine de um modo tão aberto. É uma escolha também, uma que tem muito mais a ver com o que nós concluímos do que com o que acontece no jogo (!!) pois é, Her Story é um jogo sim (!!).

Essa é a Grande Mecânica Que Envolve Escolha do jogo. Você pode escolher quando o boneco acaba a pesquisa dele. O lugar comum aqui é continuar e, se você é uma pessoa que simplesmente não suporta a ideia de ter um vídeo ainda não selecionado na base de dados como eu, vai fazer 100 %. É uma questão de satisfação. No fim não importa se tem 50 %, 75 %, 100 % ou até menos que tudo isso — se SB te chama para ir embora é porque você tem o suficiente. O suficiente para que?

Você é o fim de Her Story. Sendo um caso abandonado a muito tempo (estamos em 2016 já, né? Feliz Ano Novo, o caso é de 1992) é obvio desde o ponto inicial que ele ainda não está concluído. Cabe ao responsável por entrar naquele computador, vasculhar os dados prestando atenção vídeo por vídeo por horas contínuas chegando a ponto de ver seu reflexo no monitor — e deduzir que talvez seja hora de tomar café. É claro que é hora de tomar café. Cabe a você concluir Her Story. Tudo bem, tome seu café e também seu tempo, Sam Barlow não se importa o quanto você demore ali, inclusive pode salvar suas próprias palavras-chaves em vídeos para ficar mais fácil de achar determinado momento do jogo, também pode formar uma lista de reprodução com tudo o que há de mais interessante — veja só, é claro que nessa lista eu salvei o vídeo dela cantando.

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Quando estiver pronto é só chamar Sam Barlow no MSN. O que vem depois eu não posso falar — mas o ponto não é “o que acontece depois” é o que você conseguiu depois disso. Afinal, era o suficiente? Terminou mesmo? A própria internet pode te dizer que não. É fácil achar um fórum de discussão de Her Story entre muitos bonecos que também chegaram a uma conclusão, ligaram o MSN e chamaram Sam Barlow. Provavelmente tomaram café com ele [as 6 da manhã, depois de passar a madrugada quebrando a cabeça com o caso, e vai ser a noite/madrugada, nós vimos filmes de investigação demais para não saber como esse tipo de cena acontece] para contar tudo o que encontrou durante as pesquisas. Depois disso ele ainda dá a opção de voltar quando quiser, o MSN vai estar ali para você conversar com ele a qualquer hora também.

[03:47:38 AM] Ei. Você.

[03:47:39 AM] Você mesmo.

[03:47:40 AM] Já acabou?

Escrito por lucasq

O mais boiola desse site.