DRAG-ON DRAGOON (Drakengard) 3

Pra quem não me conhece/convive comigo provavelmente ainda não soube das noticias, mas agora a pessoa com a qual eu resolvi dedicar umas horas de meu dia admirando e sabendo mais se chama Yoko Taro. Ele faz uns jogos de videogame que são bem únicos, na verdade eles não são tão únicos assim na superfície, porém quando você atinge uma certa profundidade neles (2, 10, 20, 70 horas) é fácil notar tudo o que ele tem de autoral em suas obras e que, bem… só ele faz.

Seu primeiro jogo foi nada mais nada menos que o primeiro título da série a qual esse texto faz parte, Drakengard. É fácil de entender “quem é” a pessoa que está sendo referenciada (e reverenciada também) no texto explicando um pouco de Drakengard: ele foi um joguinho naquele estilo musou de Dynasty Warriors enquanto seu boneco estava no chão e quando você montava em seu dragão era num estilo Ace Combat/Panzer Dragoon. A história girava em torno um grupo de pessoas que constituía de canibais, um pedófilo, um protagonista psicopata que tinha um relacionamento incestuoso com sua irmã — e seu amigo Dragãozão que de vez em quando faz perguntas sobre a virgindade dela. De acordo com Yoko Taro ele fez Drakengard partindo do principio de que para alguém sair matando assim tem que ser meio doido das ideias mesmo.

Pois é.

Dá pra dizer que a primeira vez em que eu tive contato com algo “tipo” Drakengard foi há uns 6, ou 7 anos atrás, quando joguei Drakengard 2. Não tenho muito lembrança desse: foi numa reunião com amigos para jogar, aí eu lembro de ser fim de madrugada já, provavelmente umas cinco horas da manhã e na tv tinha um boneco batendo em um monte de gente de um jeito que (parecia) legal, aí do nada pulava uma Maga no cenário e meu amigo falando “esse opcional é muito difícil”. De vez em quando ele pulava no Dragãozão também. Hoje em dia dá pra tirar a poeira e já dizer que o mesmo não é a ideia de Drakengard pura (não por coisas como “canon”, e sim por motivos autorais) e era apenas mais um jogo comum que estava lá, camuflado com os bonequinhos e aquele jeito de musou desengonçado que Drakengard 1 tinha (felizmente esse segundo, eu admito, ficou muito melhor no 2, infelizmente não tinha o resto das coisas que faziam Drakengard ser tão bom assim). Tudo bem, acontece dessas quando a gente é adolescente. O que eu não sabia é que essa minha ignorância não só viria a ser usada contra mim, mas já tinha sido idealizada pelo querido Yoko Taro como um de seus (muitos) enfoques temáticos.

Você logo entra na loja de joguinhos, e vê na capa de um jogo aquela mulher gostosa banhada em sangue (isso é importante, mas eu não vou falar pra vocês o porque) junto a um dragão naquele fundo azul e não tem outro tipo de reação a não ser a de que aquilo é muito bonito,legal. A contra capa diz que “Nunca antes a carnificina tinha uma aparência tão linda”. Beleza, tá comprado o jogo. Ligamos a TV e a primeira coisa que tem é um Dragão falando com voz de bebê (ahahahahahahha) que precisa achar um lugar pra fazer xixi — acompanhado de Kuroi Uta, música cantada na bela voz da Emi Evans com cenas dramáticas no fundo, gritarias, um monte de mulher se batendo e aí aparece o título. Sinceramente, eu nunca vou ver descrição melhor do jogo. E sim, a música vem em primeiro plano, não as imagens. Seja bem vindo, pegue bons lugares, tenha certeza de não passar muito tempo na frente de TV, e aproveite.

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Começando, nós somos uma das seis Intoners: essas são um grupo de mulheres (que obviamente possuem poderes mágicos) que trazem equilíbrio e paz a um mundo encoberto por guerras, e elas são numeradas de Zero a Five, todas são irmãs também e cada uma cuida de um pedacinho desse mundão, como se ele fosse dividido em distritos. Menos a Zero. Nós jogamos com a Zero, e ela quer matar todas as outras 5 por causa de alguma vingança. A principio somos o grande vilão que a equipe de 5 belas garotas vão ter que lidar (imagina descobrir as pessoas horríveis que estão por trás disso). No começo é até engraçado não ter como dar razão ao nosso personagem — uma ex prostituta que agora está atrás de algum tipo de vingança, pega os servos das irmãs (toda Intoner tem um servo, que é o responsável por canalizar a força das mesmas) e os transforma em escravos sexuais, não tem o minimo dó de nenhuma das irmãs e trata o seu novo dragão, o bebê da introdução do jogo, que nem uma mula.

O traço único que essas coisas carregam, a protagonista promíscua, os personagens Com Sérios Problemas Mentais, conversas sobre fetiches sexuais ou piadas com a inocência do Dragão que não entende quando os personagens estão transando — são coisas pequenas que também fazem parte das concepções autorais do Yoko Taro, e ele não tem medo (!) de usar nenhuma delas na cara limpa. Não importa se é brega ou desconfortável ter esses elementos na figura que compõe a obra, justamente por ter o culhão de fazer essas coisas, de incluir esses personagens e fazer eles conversarem desse jeito por nenhum motivo exterior ao jogo (“olha como pessoa x deveria ser representada num joguinho”, “essa piadinha sagaz vai fazer todo mundo pensar no meu joguinho”) e sim porque provavelmente seria interessante soltar esse monte de gente num acampamento e ver o que eles conversam que Drakengard é tão único. Ele é o que é antes de tentar ser algo: não existe outro modo de Drakengard existir além de um mundo com gente estranha, psicopata e com diversos problemas que, bem, você só consegue imaginar alguém muito ansioso pra experimentar de novo a sensação que matar alguém trás. Quase ninguém lá dentro é de outro modo. No fim isso convém ao próprio modo dele se apresentar como um jogo comum e, de certo modo, não muito agradável — não pra fazer algum argumento ou ponto sobre a natureza dos videogames, só por ser assim mesmo. Ah, e é claro que o Dragãozinho é pacifista. Coitado.

Resta abraçar essa ideia. Se sim, nós vamos, não tem porque não ir, é só uma linha reta e “ficar apertando quadrado” de novo e de novo, chegando em uma das irmãs, enfrentando um anjo que ela vai invocar (essas lutas são sensacionais, por sinal), depois matando ela, pegando mais um servo para o Best Of Sexual Collections (vejam só a coleção completa: um sadista, um masoquista, um velho tarado e um egocêntrico viciado em mentiras) e por fim: reclamando das partes que exigem pular em plataformas. É, são 10 horas disso aí. Aí vem a conclusão. Exceto que a conclusão não é bem uma conclusão — a partir daí começa o Drakengard de verdade, diria um aviso de Dark Souls se Drakengard tivesse eles (graças a Deus não tem). Sim, ele é um Daqueles jogos que você tem de terminar várias vezes para conseguir sequer formar alguma coisa concreta sobre “o que é” aquilo.

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Mas aqui é mais dinâmico do que, por exemplo, Nier. Outro jogo do Yoko, que inclusive se passa no Mesmo Universo de Drakengard, esse também tinha o tchan de você jogar várias vezes para entender o que se passa,exceto que era sempre a mesma história por perspectivas diferentes. Não que não fosse fantástico também, as informações que iam sendo adicionadas com cada jogada realmente mudavam o jeito de ver o jogo. Aqui não. É uma versão diferente da mesma história em todas as quatro vezes, formando mais e mais uma bagunça que parece nunca se resolver. Assim até parece algo terrível, a ponto de ter que repetir a mesma coisa coisa de 10 horas por quatro vezes, por sorte não é bem assim. Depois da primeira vez que você termina, o jogo abre novos caminhos que já começam direto de onde as coisas mudam, ou seja: você sempre vai estar absorvendo coisas novas (pelo menos até o terceiro final). Um detalhe muito importante é que no primeiro Drakengard sua progressão dos finais ia tornado as coisas cada vez mais terríveis: a cada vez que você terminava o jogo de novo e liberava um capitulo a mais, os personagens iam mostrando sua verdadeira natureza, como uma especie de “recompensa inversa”. Quanto mais você continuava jogando, mais tortuoso ficava o caminho pela frente. O 3 é o contrário: prefere te fazer achar o que está no controle de uma pessoa desprezível logo de cara e aos poucos construir algo em cima disso: apesar da Zero continuar com todas aquelas coisas horríveis que ela faz/fez no começo, dá pra criar simpatia pela boneca. O que importa é que são boas histórias de se consumir — é como dizem por aí, Yoko Taro nunca repete o mesmo jogo.

Essas quatro vezes culminam no que talvez esteja entre os momentos mais bonitos da mídia chamada Video Game: a fim de passar o que queria com sua batalha final, aquela coisa que sai de qualquer escopo por ser muito maior que o jogo, muito maior que nós, ele deixa de ser o jogo que era antes, aquele lá de fazer combo e bater nos inimigos ou voar no dragão, soltando bolas de fogo, pra virar uma batalha de ritmo. O jogo dita as notas, você responde elas. Com um porém que faz as pessoas olharem a mesma como “injusta” ou “frustante”: não temos dicas visuais o tempo todo da luta, é o verdadeiro Joguinho de Ritmo. Errou, morreu. Quem tem facilidade nisso pode ter estudado música também. São os sete minutos mais intensos que eu já experimentei, provavelmente eu abro exceção pra algumas das mais memoráveis cenas de Metal Gear Solid mas isso aqui é mais ou menos no mesmo nível — se abdicar de qualquer “lei” da sua própria obra apenas para poder passar o que quer. Aqui não é nenhuma mensagem maior ou coisa assim, é uma luta. Ela tem que ser assim pra ser A Luta Final que faz sentido. Tudo bem, nós entendemos — não só porque um dia já jogamos MGS2 — mas porque as vezes quebramos uma regra ou outra também. Antes disso, claro, você vai ter que fazer quase 100 % no jogo, pegando todas as armas dele: esse é o pequeno requerimento para conhecer a verdade.

Drakengard 3 é sobre ir atrás de alguma coisa. Seja isso um significado pra sua vida, manter sua virgindade ou ser extremamente promiscuo, talvez seja até para encontrar Aquela Garota De Cabelo Colorido que não só mexe com uns vudus estranhos, mas gosta de usar tesouras as vezes, ou até pra ser aquele velhinho que tem muito menos idade que aparenta — afinal, aproveitar o que o mundo tem a te oferecer pode vir com um preço. Também é um pouco sobre ir atrás do seu passado.

TRIVIA: inicialmente o jogo se chamaria Drakengard 4 e iria ser sobre uma garota em roupa escolar buscando se informar sobre o passado, Drakengard 3. Quem jogou provavelmente vai se tocar que ainda é isso, mesmo que de outro angulo.

Essa estradinha reta que logo quebra e se divide no que aparenta ser um leque infinito de caminhos, afim de conhecer esses caminhos dá pra passar muita coisa sobre conflito, relacionamento, família e psicopatia num geral: aí dá pra descobrir também que os caminhos não eram tão infinitos.

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Em seus momentos finais, Drakengard é a luta de boxe entre você e sua própria TV, afinal você vai querer ver essa performance bonita das Intoners chamada The Final Song (Sim, agora eu posso escutar o som) ou vai querer acertar aquela nota quando a tela está escura? Não tenha medo, vá em frente: feche os seus olhos, batuque na mesa ao mesmo tempo em que aperta o botão, qualquer botão do controle. Um, dois, três, quatro, aperta! O que importa é ter seguido o ritmo delas. Mas acredite, acredite quando eu falo isso:

Apertar o botão e enfrentando as seis Intoners, de frente, sem fechar os olhos em nenhum momento mesmo que tenha a chance de ser enganado pela câmera trás muito, mas muito mais prazer. O mesmo prazer de fazer uma obra que funciona apenas para si mesma. Afinal, agora tão longe na estrada, quem vai se importar com o que vai e o que não vai agradar os outros? Tudo depende de coragem. É fácil de se sentir pequeno perto de uma luta dessas — a taxa de desistência é muito grande, o cansaço mental é maior ainda. Mas tudo bem, é o maior obstáculo já enfrentado, não poderia ser de outro jeito, assim como Nier não poderia terminar sem apagar o seu save.

Afinal, quem se importa com o que agrada ou não os videogames — se eu posso ter meu Drakengard 3?

Escrito por lucasq

O mais boiola desse site.