Paz aos Falecidos

Existe um joguinho que algumas pessoas gostam de fazer com a ficção futurista que é a de listar tudo que determinada obra “acertou” ou “errou”. Esse jogo, que deve trazer talvez dois minutos e meio de diversão para quem o joga, é o mesmo do pessoal que em 1984 (o ano) ficou reanalisando 1984 (o livro); que três anos atrás fez posts comparando nosso 2015 com os carros voadores, hover boards, tênis autocalçáveis e gravatas duplas de De Volta Para o Futuro 2; que também será o mesmo jogo que vai acontecer ano que vem com Blade Runner e, talvez um dia, (se tivermos sorte) com Infinite Warfare.

Isso acaba sendo um passo mais prosaico de tentar trazer aquela ficção para a nossa realidade. Quando começamos esses paralelismos em relação à ficção, não importa quão fugazes e rasos sejam às vezes, é uma maneira de tentar trazer aquele mundo para o nosso – e só fazemos isso porque, de alguma forma, algo ali ecoa para além daquela ficção. A realidade claramente não é o objetivo de arte, mas a reconciliação com ela por meio de beleza certamente é.

Reconciliar porque constantemente existe bastante coisa ruim com a realidade. Enquanto no macro há guerras, ideologias, histerias, buscas incessantes por identidade que acabam sendo o fim da mesma e todo o óbvio resto; no micro, existe basicamente uma realidade que tange tudo o que a anterior não toca de maneira relevante que é o amálgama de sentimentos, problemas, conflitos, limites, receios e anseios que são processados o tempo todo de maneira consciente e inconsciente e que, comumente, são mais proeminentes quando se deita na cama alguns minutos antes de dormir. Só que ainda assim, conseguimos levantar todos os dias e fazer o que precisamos fazer e isso é muito significativo.

Call of Duty: Infinite Warfare é um jogo imenso. É um jogo enorme que não cabe em si mesmo. Ele também é um jogo em que você é o Capitão Reyes numa guerra espacial num futuro tão distante que nem ano específico tem – é só O Futuro. Você, capitão, tem uma nave chamada Retribution, um escritório, um computador, auxiliares, imediatos e tudo mais que um capitão precisa. Você também tem os registros dos imediatos no seu computador com áudios e arquivos e informações que poderiam ser facilmente descartadas completamente por um olhar mais pragmático. Só com isso, IW já parte de um ponto de divergência em relação aos jogos anteriores. Enquanto sua relação com os outros membros de sua própria equipe era ditada pela batalha nas fases, aqui você também os vê dentro de nave, sem precisarem carregar armas. Você os vê assistindo à televisão, conversando, te oferecendo ajuda no que usar na próxima missão e provocando uns aos outros. Você os vê, de certa forma, vivendo. Eles não são receptáculos obrigados a simbolizar algo. São só pessoas comuns – e um robô chamado Ethan.

Os CoD de Infinity Ward geralmente mostram perspectivas dicotômicas de guerra (como o início do primeiro MW) ou/e inversões (como em MW2 com o papel dos EUA). Esse é diferente. Ele não te faz cogitar pensar no outro lado e nem pretende. Tanto que o vilão da vez é tudo o que os seus soldados não são. Ele é um receptáculo obrigado a simbolizar tudo o que se deve lutar contra. Ele constantemente aparece em telas gritando palavras de ódio que te fazem embirrar com a frase “Mars aeternum”. Nas telas de morte aparecem os pensamentos que ele propaga com coisas como “os dias de felicidade individual acabaram”. Ele é apenas uma imagem para um conceito ideológico e ele mesmo admite isso momentos antes de você enfrentar ele cara a cara quando diz que matar ele não seria vencer.

Enquanto você flerta com o fluxo repetitivo de CoD e a agressividade e o brutal, o jogo te mostra o peso das mudanças do IW. Durante o avanço nos campos de guerra seus soldados caem, morrem e se sacrificam o tempo todo. Até quando Reyes tenta encontrar conforto no “e se…” quando vê que poderia ter tido a chance de salvar alguém, o seu time deve encontrar sempre forças para continuar andando e atirando. Mesmo quando você é quem é deixado para trás, a missão tem que continuar. Quando isso acontece, Ethan decide ficar para trás junto com você enquanto a sua roupa vaza oxigênio no espaço. Ele não quer te deixar sozinho e se sacrifica não apenas por se considerar só mais uma máquina dispensável, mas por você ser o capitão dele. O sacrifício que envolve se entregar a um propósito é maior quando os números ganham nomes e rostos.

Então vem o final de Infinite Warfare. A sucessão de mortes que é essa missão final é como uma grande despedida a cada soldado e o que fizeram por e com você desde que você apertou “Novo Jogo” no menu principal. Depois de quase uma hora, enquanto naves atiram e explodem, você flutua no espaço olhando as estrelas por um capacete quebrado – sozinho dessa vez. Missão cumprida. Tudo acaba abruptamente e só resta um ar amargo de desesperança com como tudo aconteceu. A questão é que o jogo termina, de verdade, depois disso. Enquanto sobem os créditos finais você pode ouvir áudios de alguns soldados. Mensagens que eles gravaram para os familiares antes de morrerem e que acabam te mostrando muito mais do que você esperava. Você descobre coisas sobre eles nesses últimos minutos de jogo que talvez nem tenha sonhado enquanto estavam a bordo da Retribution pensando na próxima missão. Você entende que eles não estavam vivendo de fato ali no Centro de Comando; a vida deles estava além daquilo tudo.

Você os ouve falando com seus maridos, esposas, filhos, pais e reconhece que – apesar de toda a dinâmica de guerra e de embate que existe no macro de uma forma muitas vezes apocalíptica e dos constantes avisos sobre os perigos de ideologias e de ações tais – no fim, os indivíduos ainda são indivíduos que fazem parte de um mesmo todo. Por isso não há perspectivas e dicotomias presentes dessa vez e não há por que ter. O conflito não é simplesmente de conceitos, ideologias, grupos ou nações, é humano. É cada um olhando o mundo pelas suas próprias janelas e discordando sobre o que há nela de fato e sobre todas essas coisas significam; é infinito. Por mais que se vistam com essas camadas e elas afetem em certos níveis, no fim ainda é um filho querendo deixar o pai orgulhoso, uma mulher querendo lutar para que possa voltar e ter uma vida de paz com a esposa, um marido querendo lutar pelo futuro de filha que ele ainda nem viu nascer. Algo tão distintamente humano, honesto e relevante que mesmo um robô consegue perceber, entender e almejar. Em todo caso, esses áudios são uma redenção, uma luz sobre o final derrotista que a história sugere e que traz de volta uma certa confiança que talvez explique o motivo do nome de sua nave.

Por isso Infinite Warfare é um jogo tão imenso e atual. Só de contemplar a brutalidade e o bélico se tornarem vulneráveis à beleza de existência humana, nos reconciliamos com a realidade. A consciência de que, apesar de tudo, o mundo é bom. É difícil perder pessoas e ver acontecendo aos outros, é difícil tomar decisões, é difícil lidar com o caos na realidade, contudo, inevitavelmente existem coisas infinitamente soberbas nela, só que essas são mais difíceis de serem notadas com a mesma rapidez que as outras. A reconciliação é com a realidade mundana do cotidiano (acordar, ir pro trabalho, cuidar do seu bicho, conversar com seus pais, ouvir música com alguém que você gosta) porque essa é a realidade mais imediata e importante que costumeiramente falhamos em contemplar. Mesmo assim, volta e meia acontece de termos uma revelação com essa realidade que reafirma o mundo e o dia-a-dia real em que vivemos. É como uma porta para a transcendência que supera e suspende a perspectiva propensamente negativa daquela mescla da existência humana por instante que seja – um instante que pode até ser breve, mas é imensamente importante.

Escrito por Fellipe Mendes

É o tipo de pessoa que tem sentimentos por videogames e cozinha pão de queijo sem deixar espaço entre eles pra depois ir separando enquanto come.

  • HeatblastTen

    que texto bonito fellipe. eu gosto muito quando vocês pegam uns jogos e olham por ângulos que ninguém chegou a olhar (independente de ser de modo técnico ou artístico). pouca gente imaginaria que call of duty, O Jogo Mais Comercial De Todos teria uma mensagem tão bonita e de certa forma motivadora assim. ansioso pra jogar esse qualquer dia.

    • obrigado, heat!! espero que consiga jogar em breve, vale muito a pena